«Na inconstância do meu estado» – Luís Teixeira

lados da mente luis teixeira
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Na inconstância do meu estado
Arrítmicos palpitam mil pensamentos
Meu sangue circula num rio barrado
À fluidez de todos os movimentos

 

Se artístico ou lógico
Quem o vir, como vir, dirá
O que pensou ver, como eu me vi, onírico
E assim, de si mesmo fará

 

Como aquele que se define sem se entender
Ou a escola de pensamento que afirma ser
A realidade, a divindade, ou a vida

 

Luís Teixeira 16/05/2019

 

a mulher é uma construção – Angélica Freitas

a mulher é uma construção

xueh-magrini-troll
Douda Correria

 

a mulher é uma construção

deve ser

 

a mulher basicamente é pra ser

um conjunto habitacional

tudo igual

tudo rebocado

só muda a cor

 

particularmente sou uma mulher

de tijolos à vista

nas reuniões sociais tendo a ser

a mais mal vestida

 

digo que sou jornalista

 

(a mulher é uma construção

com buracos demais

 

vaza

 

a revista nova é o ministério

dos assuntos cloacais

perdão

não se fala em merda na revista nova)

 

você é mulher

e se de repente acorda binária e azul

e passa o dia ligando e desligando a luz?

 

(você gosta de ser brasileira?

de se chamar virginia woolf?)

 

a mulher é uma construção

maquiagem é camuflagem

 

toda a mulher tem um amigo gay

como é bom ter amigos

 

todos os amigos têm um amigo gay

que tem uma mulher

que lhe chama de fred astaire

 

neste ponto, já é tarde

as psicólogas do café freud

se olham e sorriem

 

nada vai mudar —

 

nada, nunca vai mudar —

 

a mulher é uma construção

 

Angélica Freitas, Um Útero é do Tamanho de um Punho, #66 Douda Correria, 2017

 

 

 

Receita original de risotto de favas

A arte de aproveitar sobras

fava seca
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Imagina que tinha sobrado um caldo de sopa alentejana, daquele cheio de alho e coentros feito para deitar o ovo, bem temperadinho.

Agora lembra-te daquelas favas que sobraram de quando fizeste uma bela de uma fava rica (fava seca demolhada e cozida, que se apregoava em Lisboa no tempo dos meus avós), da qual tinhas congelado uma “amostra”.

Ia para almoçar e lembrei-me de fazer uma sopa com o caldo e com as favas (já a descongelar de véspera). Já a dita estava a levantar fervura quando de repente me chega a inspiração de fazer um risotto de favas a partir dali.

Então, sem mais gorduras, acrescenteilhe o grão do risotto e já mais para o final, o queijo, sempre a mexer, até começar a engrossar e a ficar cremoso.

Meti-lhe, já desligado do fogão, um belo ramo de hortelã do jardin e eis que o resultado ficou muito além do esperado.

Talvez o mais difícil seja fazer outro igual, ou repetir a dose.

 

A um jovem poeta – A. Dasilva O.

página em branco
imagem daqui

A um jovem poeta

 

Estás fodido

Está tudo escrito

Está tudo dito

Está tudo feito

 

Ai na página em branco

Só faltam as tuas lágrimas

De sangue

Até ficares grávido

De lucidez.

 

E os clássicos?

Bom esses

Estão todos fodidos.

 

A, Dasilva O., O Pin da Bíblia, Lisboa, 2005

«Queridos papá e mamã» – Charles Bukowski

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Saturday Evening Post, December 31, 1955

Queridos papá e mamã

o meu pai gostava de Edgar Allan
Poe
e a minha mãe gostava do
Saturday Evening Post
e ela morreu primeiro
o padre a baloiçar
nuvens de incenso sobre o
caixão
e o meu pai segui-a
mais ou menos um ano depois
e naquele caixão forrado a veludo roxo
a cara dele parecia gelo
pintado de amarelo

o meu pai nunca gostou
do que eu escrevia:<<as pessoas
não querem ler este
tipo de coisas.>>

<<sim, Henry>>, dizia a minha
mãe, <<as pessoas
querem ler coisas que as
façam felizes.>>

eles foram os meus primeiros
críticos literários
e
ambos tinham
razão.

 

Charles Bukowski (trad. desconhecido)